Casa Nova - Bahia

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15 de março de 2017

Multas de R$ 30 milhões do mensalão põem AGU e Ministério Público em lados diferentes

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A advogada-geral da União, Grace Mendonça (Foto: Beto Barata/PR)

O assunto é objeto de análise do Supremo Tribunal Federal


As multas aplicadas no mensalão, resultantes das condenações penais, põem a Advocacia-Geral da União (AGU) e o Ministério Público Federal em lados opostos. A ministra da AGU, Grace Mendonça, vai ao Supremo Tribunal Federal (STF) defender que a cobrança das multas, estimadas em cerca de R$ 30 milhões, seja realizada pelo governo, por meio do Ministério da Fazenda. Já o MPF acha que o órgão é o responsável pela cobrança. O assunto foi parar na Justiça e será objeto de julgamento do STF. O relator da ação envolvendo o tema é o ministro Marco Aurélio Mello.
A questão extrapola o mensalão. Especialistas estimam que os valores de multas aplicadas em ações penais cheguem a mais de R$ 300 milhões. Resta saber quem será o responsável por cobrar o montante.
Por Revista Época 

5 de maio de 2016

Versão de golpe não colou no mundo, mas Cunha gerava suspeitas

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Passei as duas últimas semanas conversando com especialistas em relações internacionais em institutos de pesquisas de Washington e de Nova York, com americanos comuns, e também com economistas americanos e europeus. Todos estão a par do que se passa no Brasil. O discurso da presidente Dilma Rousseff de que é vítima de um golpe não colou. Mas a presença de Eduardo Cunha na presidência da Câmara, conduzindo o processo de impeachment, lançava dúvidas sobre se o Brasil estava se livrando da impunidade e da corrupção ou apenas vivendo uma disputa de poder, que usava as investigações como munição. Por isso, a suspensão do mandato de Cunha é um passo essencial para o Brasil construir uma imagem de credibilidade perante o mundo.

Um taxista de Washington me disse que tinha ouvido na NPR, a rede pública de rádio dos Estados Unidos, que o presidente da Câmara estava usando o impeachment contra Dilma para se livrar de um processo de corrupção contra ele mesmo. E me perguntou se a presidente tinha feito realmente algo de errado.
“As pessoas estão chocadas por causa de Cunha, mas também impressionadas com o Ministério Público, que parece estar construindo uma base sólida para o domínio da lei”, me disse Harold Trinkunas, diretor para América Latina do Brookings, um dos centros de pesquisas mais influentes dos Estados Unidos. “No longo prazo, há otimismo de que o Brasil sairá mais forte. O perigo é de um retrocesso político contra o Ministério Público e o Judiciário, como aconteceu com a Operação Mãos Limpas da Itália depois da ascensão de Silvio Berlusconi.”
“Passei mal quando ouvi Dilma Rousseff afirmar que estava sendo vítima de um golpe”, me contou o diplomata aposentado William McIlhenny, pesquisador do German Marshall Fund, que frequentou o Brasil na juventude, vindo visitar amigos de sua família. “Se o Brasil não tivesse instituiçoes e imprensa fortes, nada disso estaria acontecendo. No meio dessa confusão, há uma história de sucesso. Mas o que vem em seguida é muito importante. A população precisa manter-se focada”, acrescentou o diplomata, referindo-se às investigações contra Cunha e os outros políticos.
Por Lourival Sant Anna / Estadão

3 de maio de 2016

“ Causas da queda da representação parlamentar”

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A queda na qualidade da representação parlamentar é um fenômeno que se espalha por boa parte dos países da nossa região, avalia o sociólogo Bernardo Sorj, mas há razões específicas ao Brasil que são destacadas pelo historiador José Murilo de Carvalho, da Academia Brasileira de Letras, e pelo cientista político Sérgio Abranches: os reflexos dos 21 anos da ditadura militar que o país viveu.
Para José Murilo de Carvalho, um dos fatores que afetaram a qualidade da elite política atual “é o fato de que a geração que está agora ocupando espaço no Executivo e no Legislativo teve, sim, uma escola ruim, mas uma escola política ruim. Ela amadureceu durante a ditadura quando o Congresso permaneceu aberto, mas castrado pelo regime. Esta geração de políticos guardou então da atuação política uma visão puramente utilitária, sem qualquer dimensão cívica”.
Já Abranches diz que a ditadura interrompeu o fluxo de formação de lideranças acostumadas aos embates democráticos desde o movimento estudantil. Este foi capturado e monopolizado por partidos que não têm cultura democrática. A disputa tolerante entre visões e correntes diversas e o pluralismo desapareceram da política estudantil, que foi um campo de formação de lideranças.
“Não criamos novos canais de formação de lideranças políticas. O fim da clandestinidade forçada não reabriu o processo democrático na política estudantil”. Bernardo Sorj vê múltiplas razões para a decadência política na América do Sul, onde excetua o Chile e o Uruguai, como o surgimento de partidos novos, com frágil conteúdo programático, basicamente máquinas eleitorais em contextos de profundas transformações sociais (em particular processos de urbanização) que desorganizaram os velhos sistemas de fidelização de voto.
A perda de qualidade parlamentar é causada por dois motivos fundamentais, segundo Sorj: 1) a carreira política passou a ser uma oportunidade para pessoas que vêem nela uma forma de ascensão social e enriquecimento pessoal. Se trata de indivíduos onde o público está ao serviço do privado. 2) A nova geração da elite social e cultural se afastou da vida política – mas não da carreira pública, haja vista no Brasil, por exemplo, a nova geração de promotores.
A política é vista como um lugar de ineficiência e corrupção por uma geração com orientação cosmopolita e menos engajada nos problemas nacionais. Quando se engaja, o faz através de organizações de sociedade civil nas quais podem promover causas públicas sem ter que entrar em negociações e negociatas.
Eles consideram também o setor privado e o mundo empresarial mais atrativo e correto, com regras definidas de meritocracia e de ascensão econômica. Sergio Abranches concorda em que houve perda de reputação e prestígio da atividade política, que desvia jovens que teriam perfil para a política profissional para outras atividades de maior prestígio.
Ampliou-se também o acesso às candidaturas, principalmente pela democratização e eliminação de barreiras elitistas e pela fragmentação partidária, ressalta Abranches. Os movimentos organizados (CUT, sindicatos, organizações patronais, etc…) e igrejas evangélicas passaram a buscar representação parlamentar. “Esse processo de ampliação de acesso está relacionado à urbanização acelerada, ao aumento das comunicações, à penetração da TV e, sobretudo, à mobilidade social e econômica”.
O sociólogo Francisco Weffort acha que temos uma lei eleitoral inspirada em princípios que se adequaram, em alguma medida, ao Brasil de após 1945, mas que são inteiramente inadequados para o Brasil de após 1985. “Naquela época nós estávamos ainda saindo dos limites de uma sociedade rural, hoje somos plenamente uma sociedade urbana de massas. Neste sentido, quanto mais se urbaniza (e, paradoxalmente, quanto mais se democratiza) a sociedade, mais decai a representação”.
O também sociólogo Simon Schwarzman vê uma grande ampliação de acesso na política, “não necessariamente aos mais pobres, mas aos detentores de “dinheiro novo” obtido de forma mais ou menos ilegal, figuras de grande visibilidade como radialistas e jogadores de futebol, líderes religiosos e representantes de algumas categorias profissionais como policiais, e outras, sem falar de milicianos e outros personagens mais ou menos sinistros”. (Na terça-feira, propostas para reforma política)
Por Merval Pereira , Colunista do jornal "O Globo", comentarista da TV Globo News e da rádio CBN, é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e do conselho editorial das Organizações Globo. Fez parte do primeiro conselho editorial do jornal “Valor Econômico”




28 de abril de 2016

Qual a origem do termo " República de Bananas ", usado pelo Jornal The Guardian para se referir ao Brasil ?





Getty
Em um artigo para marcar o início do período de 100 dias que antecede os Jogos Olímpicos, o jornal britânico The Guardian afirmou nesta semana que o Rio de Janeiro “entra na reta final olímpica parecendo mais uma clássica república de bananas do que uma economia emergente moderna a ponto de assumir seu lugar entre as principais do mundo".

A publicação enumera no texto alguns problemas do Brasil, como a queda drástica do PIB, o processo de impeachment e os escândalos de corrupção, e locais, como a poluição na Baía da Guanabara, a morte de 11 trabalhadores nas construções olímpicas e a queda de parte da ciclovia Tim Maia.

Mas, de onde veio a expressão “república de bananas” – trocada na versão online do artigo por "república latino-americana" –, usada de forma pejorativa para se referir a países da América Latina e Caribe? A resposta passa pelo histórico de violência da região.

Ficção que virou realidade

O termo foi cunhado pelo escritor americano William Sydney Porter, conhecido como O. Henry, no conto O Almirante, de 1904
A história do conto se passa na Anchuria, país fictício descrito pelo autor como “uma pequena república de bananas”. Acredita-se, porém, que Porter tenha se inspirado em Honduras, onde morava quando escreveu a história.
À época, o uso dessa fruta em particular para rotular países inteiros tinha uma base real.
“Até o fim do século 19 e começo do século 20, as empresas americanas, sendo que a mais simbólica era a United Foods (hoje Chiquita), começaram a fazer plantações de bananas em série e criariam enclaves modernos em repúblicas da América Central”, disse à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, o historiador Luis Ortega, professor da Universidade de Santiago do Chile.
Segundo ele, as “repúblicas de bananas” eram literalmente os países tropicais produtores de bananas e, com isso, dependentes da renda de empresas americanas.
Mas, como explica Ortega, o termo acabou ganhando um significado mais amplo ao migrar para os estudos políticos.
A expressão passou a fazer referência a países marcados pela monocultura e dotados de instituições governamentais fracas e corruptas, nos quais uma ou várias empresas estrangeiras tem o poder de influir nas decisões nacionais.
Para Ortega, que viveu por dez anos na Grã-Bretanha, o que chama a atenção é que os anglo-saxões não aplicam a expressão a países que estejam fora da América Latina e do Caribe.
Em seu livro Cem Anos de Solidão, o escritor colombiano Gabriel García Márquez descreveu a instalação de companhias bananeiras na região como algo que trouxe modernidade, mas também violência e morte.
Em seu livro Bananas: How the United Fruit Company Shaped the World(“Bananas: Como A United Fruit Company Moldou o Mundo”, em tradução livre), o jornalista Peter Chapman afirma que, ao se instalar na região, esta e outras empresas concordavam em construir estradas, ferrovias e portos em troca de terras onde a banana seria produzida.
O truque era que, às vezes, os serviços instalados só beneficiavam as próprias companhias e seus negócios de exportação de bananas.
Mas isso não é o pior. Para citar alguns exemplos, há também o “o envolvimento da companhia em uma invasão em Honduras, um massacre na Colômbia e um sangrento golpe de Estado na Guatemala”, segundo a editora do livro, a Grove Atlantic.
Sobre a Guatemala, um executivo da United Fruit disse a Chapman que “a Guatemala foi eleita como sede das primeiras atividades de desenvolvimento da companhia porque, quando entramos na América Central, o governo da Guatemala era o mais fraco, corrupto e flexível da região”, de acordo com o jornalThe New York Times.

E o Brasil?

Para Ortega, aplicar o termo “república de bananas” ao Brasil é incorreto e leviano.
“Por exemplo: uma pessoa pode estar a favor ou contra o impeachment, uma pessoa pode acreditar ou não em toda a história de corrupção que cerca o caso Petrobras. Mas, em qualquer caso, as instituições estão funcionando”, afirmou o historiador chileno.
Ele acrescenta que, em uma "república de bananas", diante do “primeiro sinal de instabilidade” já teriam matado o presidente ou teria ocorrido um golpe de Estado.
“O que está acontecendo no Brasil é um caso de crise política, mas que estão tentando resolver de acordo com as instituições.”
Da BBC Mundo

17 de novembro de 2015

Desastre em Minas Gerais x Terrorismo em Paris: como a imprensa brasileira cobriu os dois casos?

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(Imagem: Agência Brasil e Fotos Públicas)
Quinta-feira, 5 de novembro: duas barragens de rejeitos da Samarco, empresa cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP, se romperam e inundaram de lama o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais. Sexta-feira, 13 de novembro: ataques terroristas em Paris, na França, deixaram mais de 120 mortos e centenas de feridos. As duas notícias pautaram a imprensa brasileira, mas em proporções bem diferentes. É isso que mostra o levantamento feito pela reportagem do Portal Comunique-se ao olhar para as mídias TV, jornal e revista. Diante da importância factual de ambas, a reportagem levou o tema a acadêmicos, que avaliaram o comportamento dos veículos de comunicação. Mas antes de abrir o debate, vamos aos dados.

Globo, SBT, Record e Band
A análise feita pelo Portal Comunique-se leva em consideração o comportamento da imprensa no início de cada fato. Ou seja, mostra como foi a cobertura do desastre em Minas Gerais nos dias 5, 6, 7 e 8 de novembro, e as notícias dos ataques em Paris nos dias 13, 14 e 15 do mesmo mês. A começar pelas emissoras de TV, a Globo dedicou, aproximadamente, uma hora e 12 minutos de sua programação, ao longo dos quatro dias analisados, para abordar a pauta nacional. Os programas que entram no estudo são os jornalísticos 'Hora Um', 'Bom Dia Brasil', 'Jornal Hoje', 'Jornal Nacional', 'Jornal da Globo' e 'Fantástico'. No total, 17 reportagens foram apresentadas. Fabiana Almeida, Ricardo Soares, Viviane Possato, Cristiane Leite, Fernando Moreira, Aline Aguiar e Ismar Madeira foram alguns dos jornalistas envolvidos nessas coberturas. O Portal Comunique-se observou que a emissora não criou especiais sobre o tema. Quando o assunto é o ataque em Paris, o canal reservou, aproximadamente, três horas e 54 minutos de sua grade para abordar o tema nos dias 13, 14 e 15. As reportagens foram veiculadas nas mesmas atrações mencionadas, sendo que 'Hora Um' ganhou edição extra no sábado, 14, especialmente para falar do tema. Além disso, 'JN' e 'Fantástico' também tiveram edições dedicadas à pauta. Os correspondentes foram movimentados e nomes como Carolina Cimenti, Cecília Malan, Márcio Gomes, Ilze Scamparini, Pedro Vedova, Roberto Kovalick, Fábio Turci, Alan Severiano, Sandra Coutinho, Tonico Ferreira, Jorge Pontual e Marcos Uchôa reportaram os acontecimentos - diretamente da capital francesa e de outras cidades. No total, 68 reportagens foram apresentadas.

O mesmo acontece com outras duas emissoras. SBT, por exemplo, transmitiu, aproximadamente, 16 minutos de reportagem sobre o desastre em Minas Gerais nos programas 'Jornal do SBT' e 'SBT Brasil'. Fernanda de Andrade e Sid Marcus estão na lista dos repórteres que cuidaram da pauta. No total, oito reportagens foram veiculadas. A notícia sobre os ataques terroristas ganhou espaço de 45 minutos nas mesmas atrações com informações de Elcio Ramalho, Karina Pachiega, Daniel Adjuto, Yula Rocha e Sérgio Utsch. O canal, assim como fez a Globo, entrevistou o especialista Heni Ozir Cukier para falar sobre a violência. No total, 18 matérias foram apresentadas sobre o atentado.
A Record veiculou 40 minutos de conteúdo sobre a pauta nacional nos noticiários 'Balanço Geral Manhã', 'Fala Brasil' e 'Jornal da Record'. Para cuidar da apuração, estavam envolvidos os jornalistas Virgínia Nalon, Sálua Zorkot, Helen Oliveira e Luiz Carlos Azenha. Quinze reportagens foram ao ar. O tema internacional ganhou no canal, aproximadamente, uma hora e sete minutos com matérias de André Tal e Jonathas Mello, jornalista que colaborou com as informações. Ele mora em Paris e falou de maneira especial para a emissora. Foram veiculadas 25 reportagens.
A Band foi a única que apresentou dados distintos. Em seus programas 'Café com Jornal', 'Brasil Urgente', 'Jornal da Band' e 'Jornal da Noite', a emissora usou uma hora e 44 minutos da grade para falar sobre o caso em Minas Gerais com 26 matérias. Para os ataques em Paris, uma hora e dois minutos foi reservada para o tema. No total, o canal colocou no ar 23 reportagens, sendo que o correspondente Milton Blay esteva envolvido na cobertura.
CartaCapital, Época, Veja e IstoÉ
Quando os fatos aconteceram, as revistas semanais já tinham definido suas capas. CartaCapital, Época, Veja e IstoÉ tiveram a oportunidade de tratar do desastre em Minas Gerais na capa desta semana, já que o evento foi no dia 5 de novembro. Em todas as publicações, exceto em Veja, o caso ganhou chamadas na capa, mas não como destaque principal. A Época chegou a criar especial sobre o assunto, mas os ataques em Paris fizeram com que o material ficasse em segundo plano

Correio Braziliense, Diário de Pernambuco, Estadão, Estado de Minas, Folha de S. Paulo, Gazeta do Povo, O Globo, O Tempo e Zero Hora
Quando a análise chega aos impressos diários, é possível ver que as duas pautas ganharam as capas. Correio Braziliense, Diário de Pernambuco, Estadão, Estado de Minas, Folha de S. Paulo, Gazeta do Povo, O Globo, O Tempo e Zero Hora trabalharam a tragédia de Minas Gerais e os ataques em Paris de maneira parecida, com capas destacando o caso brasileiro nos dias 6, 7 e 8 de novembro e a pauta internacional como foco nos dias 14, 15 e 16. A diferença está nas publicações locais. Mesmo diante do terrorismo internacional, Estado de Minas e O Tempo mantiveram o caso nacional em evidência

Valor notícia?
Quem conversou com a reportagem do Portal Comunique-se foi a coordenadora do curso de jornalismo da Cásper Líbero, Helena Jacob, e o coordenador do curso de jornalismo da PUC do Rio Grande do Sul, Fábian Chelkanoff Thier. Ao terem conhecimento dos dados levantados pela reportagem, eles concordam que as duas notícias são de extrema importância, mas foram enfáticos ao dizer que a imprensa não deu a verdadeira dimensão para o caso de Minas Gerais nos primeiros dias de cobertura. Eles levantam, ainda, alguns motivos para isso ter acontecido.

Segundo Helena, falar em "desastre natural" ao noticiar que as barragens romperam é um erro. Trata-se de desastre tecnológico, avalia. "A cidade estava arrasada, a lama continuava correndo, chegou ao Rio Doce e só depois, motivada pelas redes sociais, a imprensa viu que era muito mais sério. Houve despreparo, mas acredito que agora os veículos estão correndo atrás do prejuízo". Segundo a professora, que acompanhou a cobertura dos dois casos, o trabalho está equilibrado nesta semana.
Ela conta que os ataques em Paris ganharam mais destaque porque existe miopia no jornalismo. "Paris é lugar importante para a cobertura internacional, mas o mundo não é somente isso. O que acontece é que existe espetacularização midiática sobre o tema, já que as pessoas conhecem a França, o público tradicional da imprensa conhece as grandes capitais e isso direciona a cobertura porque tem identificação. Porém, isso não justifica não cobrir fatos nacionais". Helena afirma que a cobertura sobre os ataques terroristas foi positiva, mas ressaltou que se não tivesse pressão das redes sociais, os veículos iriam cobrir a pauta fortemente ao longo desta semana sem dar atenção aos problemas do próprio país.
De acordo com Chelkanoff Thier, pautas internacionais, ainda mais quando se fala em terrorismo, sempre serão muito importantes, no entanto o que se viu na cobertura de Minas Gerais é que a maior tragédia ambiental do Brasil foi colocada em segundo plano por questões econômicas e financeiras. "A impressão que tenho é que os veículos têm medo de falar sobre a Vale. A Samarco cometeu erro gravíssimo contra a população, mexeu com vidas e um distrito inteiro, e ninguém diz nada?", questiona.
Para o acadêmico, a situação ainda tem agravante: pauta ambiental tem menos prestígio e é tratada de maneira secundária no Brasil. "Alguns especialistas defendem que por 100 anos vamos pagar pelo que aconteceu em Mariana. Só que o que vai acontecer no futuro acaba não ganhando espaço na imprensa. Vamos ter problemas de flora e fauna, de água, que já vive crise, e não se fala, pois o que acontece agora é mais importante do que vai acontecer. É um erro do jornalismo de maneira geral. A imprensa é imediatista".
Chelkanoff Thier compara o que aconteceu em Minas Gerais com o caso da boate Kiss, que matou mais de 240 pessoas no interior do Rio Grande do Sul. Ele lembra que os âncoras deixaram as bancadas para apresentarem os jornalísticos no local. "Existe problema grande de critério no jornalismo brasileiro. Por qual motivo o apresentador não foi até o local ver a situação de Minas Gerais? Por que não enviaram mais jornalistas? Esse rompimento foi tão grave quanto o caso do incêndio em Santa Maria. Não há como mensurar a tragédia que foi o caso de Minas e a mídia não fala com proporção sobre o tema". O professor concorda com Helena do ponto de vista das redes sociais. Para ele, as mídias alternativas ajudaram a noticiar e criar comoção diante do caso.
Escrito por Nathália Carvalho / Portal Comunique-se

16 de novembro de 2015

Por que Proclamação da República e não Golpe?


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 Pressionado por setores do Exército e pelos republicanos a liderar a deposição da monarquia, o marechal Deodoro da Fonseca hesitava. Não queria bater de frente com “o velho”, o imperador dom Pedro 2°, que respeitava. Falava em um dia poder acompanhar o caixão do monarca.


Mas Deodoro acabou cedendo às pressões em 15 de novembro de 1889, derrubou o regime, virou o primeiro presidente e o feriado da Proclamação da República está aí.

Agora, por que o senso comum fala de “proclamação” e não de golpe? Afinal, o Exército derrubou o imperador e o governo constitucional, que ali estava de acordo com a Carta de 1824. Gestado pelas elite econômico-militar insatisfeita com os rumos do país, o movimento não teve participação popular.

A família Bragança foi tirada do país de madrugada, para evitar reações populares. Sob os protestos de dom Pedro, que teria protestado: “Não sou negro fugido. Não embarco nessa hora. Os senhores são uns doidos!”
Segundo o cientista político e historiador José Murilo de Carvalho, autor de “Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi”, foi um movimento “ilegal e ilegítimo”.

“O movimento republicano existia, mas sem condições de chegar ao poder por via legal. Uma alternativa discutida era uma constituinte para decidir a forma de governo. O golpe a frustou”, afirmou Carvalho ao blog.
“Golpe do bem”
No ótimo artigo recente “Um teste para seu DNA golpista”, Elio Gaspari enumera dez rupturas institucionais brasileiras e pede que o leitor julgue se foram ou não golpes.

“Quem não viu golpe em 1889, 1930 e 1945 tem uma inclinação para apoiar ‘golpes para o bem’”, diz Gaspari. Refere-se à deposição de dom Pedro, à “revolução” em que Getúlio Vargas derrubou os oligarcas da República Velha e à derrubada do Estado Novo getulista, que atuava à margem do Estado de direito.
Mas, afinal, não haveria legitimidade em depor um regime liderado por um monarca vitalício, rodeado por uma corte de nobres e chefe de um “Poder Moderador” que se sobrepunha aos demais e baseado em uma Constituição que havia sido outorgada por seu pai?

“Não existe golpe do bem”, opina a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, autora de “As barbas do imperador” e do recente “Brasil: uma biografia”.
“A gente aprende como historiador que não vale só você seguir sua ideologia”, diz sobre a ideia de que o que não corresponde a uma idealização é tratado como revolução e o que não corresponde, é golpe.
“É golpe quando você tem uma movimentação política que coloca fim a um Estado legalmente constituído. A gente pode concordar ou não com a monarquia, mas era constitucional”, afirma.

Poder Moderador x AI-5
Com o potencial autocrático do Poder Moderador, poderíamos chamar o regime monárquico de ditadura?
A historiadora diz que ditadura é um conceito datado, mais afeitos aos modelos políticos do século 20, como o regime militar iniciado em 1964. “Quando você usa o termo [para falar da monarquia], é um anacronismo.”
Ela classifica o Poder Moderador como “terrível”, mas argumenta que “diferente de uma ditadura, o Poder Moderador praticamente não foi utilizado, muito diferente dos nossos atos institucionais [da ditadura militar de 1964]”.
Mas isso porque dom Pedro 2° era um estadista pacato. Como teriam sido seus eventuais sucessores com tal poder de impor suas vontades a Executivo, Legislativo e Judiciário? “A gente não faz a história do ‘se’”, diz Schwarcz.
Mudança

E é justamente na ditadura militar de 64-85 que o conceito de “proclamação” da república encontra ecos. A exaltação republicana e conceito crítica à monarquia começou logo após o início do regime, com trocas de símbolos, nomes de ruas, colégios, estações de trem. A historiografia republicana se impôs ao longo dos anos e se reforçou sob o regime de 64.

“A ditadura militar que refez uma linguagem de patriotada em torno da proclamação da república”, conta Schwarcz.
O regime que chegou ao poder por um golpe não teve coragem de chamar assim o golpe de 1889.

Mas as coisas estão mudando. A ideia de uma asséptica “proclamação” da república, embora predominante no senso comum, começou a ser questionada após a redemocratização, sobretudo entre os historiadores.

Hoje, diz Schwarcz, isso já chega mais facilmente aos livros didáticos e às escolas.

Quem sabe um dia a ideia pegue a se dê os devidos nomes aos bois. Esperamos, porém, que a data nunca deixe de ser um feriado e que evite cair aos domingos.
( Por Rodrigo Vizeu /Folha de São Paulo )