Os
jornais desta quarta-feira (14) trazem reportagens sobre manifestação ocorrida
no Rio, na véspera, na qual foi exigida uma explicação das autoridades para o
caso do pedreiro Amarildo Dias de Souza, que desapareceu há um mês, após ser
detido por policiais na favela da Rocinha.
As
imagens do ato de protesto ocorrido em frente à Assembleia Legislativa
impressionam pelo desempenho de atores que, banhados em tinta vermelha,
representavam a violência do Estado contra os cidadãos.
Ainda não se sabe o paradeiro do operário e se, está
morto, quem o assassinou; mas, como estava em mãos de agentes públicos na última
vez em que foi visto, cabe ao governo do Rio dar uma resposta.
No Globo e na Folha de S. Paulo, amplas
reportagens expõem o contexto em que deve ser visto o caso do pedreiro Amarildo:
segundo o Instituto Sou da Paz, que promove pesquisas e campanhas contra a
violência, ele representa nada menos do que 34.700 pessoas cujo desaparecimento
foi registrado desde 2007 no Estado do Rio.
Naquele ano, o Globo havia produzido uma série de
investigações mostrando que a polícia e as quadrilhas que dominavam as favelas
cariocas eram responsáveis por cerca de 14 mil mortes ou desaparecimentos
ocorridos nos vinte anos anteriores, um número muito superior ao total de
vítimas da repressão promovida durante a ditadura militar.
O
levantamento divulgado agora pela imprensa mostra que a situação piorou nos
últimos dez anos, com um aumento de 29% no registro de pessoas que simplesmente
se desvaneceram no ar.
Alguns casos, como o da engenheira Patrícia Amieiro, que
está desaparecida desde julho de 2008, são individualizados pelos jornais, mas a
imensa maioria das vítimas se transformou apenas em um registro na burocracia do
Estado.
A
engenheira foi provavelmente morta por engano, durante uma abordagem desastrada
feita por quatro policiais militares, que dispararam contra seu carro e depois,
ao verificar o erro, trataram de dar sumiço ao corpo.
Os números
apresentados na estatística revelam um estado de guerra que não faz distinção de
classe ou etnia, mas há um forte predomínio de homens jovens, negros e pardos,
moradores de favelas, no perfil típico das vítimas.
Num
apanhado genérico que engloba o período de 22 anos iniciado em 1991 e concluído
em maio deste ano, o total de registros de desaparecimentos chega a 92
mil.
Embora não se possa afirmar quantas dessas pessoas foram
assassinadas, porque muitas simplesmente deixaram suas casas com medo da
violência do narcotráfico e da polícia, os dados apresentados pelos jornais
indicam a permanência de um estado de guerra, que diminui mais recentemente, mas
não desaparece com a implantação das Unidades de Polícia
Pacificadora.
Pequenas e grandes tiranias
O
pedreiro Amarildo pode ser um desses cidadãos que resolveram se deslocar para a
clandestinidade e o anonimato, em um lugar qualquer longe de suas famílias, por
medo de policiais ou traficantes.
Mas
as evidências divulgadas pelas autoridades indicam a probabilidade de que ele
tenha sido morto durante interrogatório e seu corpo levado para lugar
desconhecido.
Falhas no sistema de monitoramento por câmeras no posto
policial para onde foi conduzido e o desligamento dos sistemas de localização
das viaturas que se encontravam de serviço naquele lugar, indicam uma ação
planejada para dificultar o rastreamento de seus movimentos após sua apreensão
pela polícia.
A
prática lembra episódios ocorridos com presos políticos durante a ditadura
militar, e é justamente a permanência de uma mentalidade de extermínio nas
tropas do Estado que os manifestantes estão denunciando.
Eles prometem voltar a protestar no centro do Rio nos
próximos dias, e repetir suas palavras de ordem até que as autoridades tenham
uma explicação para o desaparecimento de Amarildo.
Embora o noticiário esteja concentrado no Rio, pela
repercussão que vem tendo o caso do pedreiro, essa é uma tragédia que se
multiplica, com maior ou menor frequência, em muitas outras regiões do
País.
Um
dos grandes desafios do Brasil é consolidar o processo de democratização das
instituições públicas.
A
violência e a arbitrariedade de agentes do Estado compõem um aspecto importante
no conjunto dos descontentamentos difusos detectados nas ruas.
Os
abusos de todos os tipos, praticados sob a proteção de cargos públicos, são
parte desse contexto de opressão e se manifestam de diversas formas, seja na
violência extremada, seja na exigência de propinas e no descaso com serviços
públicos essenciais, como a saúde.
Os
núcleos de violência, corrupção, privilégios e mera negligência atrasam o
processo de modernização do País.
Nas
costas largas da democracia parasitam pequenas e grandes
tiranias.
Nenhum comentário:
Postar um comentário